O Homem Invisível - H. G. Wells
"O que sobra da ética quando ninguém pode nos ver?" Confira a resenha de O Homem Invisível, o clássico de H.G. Wells que une ficção científica, crimes misteriosos e uma mente perturbada em busca de poder.
Camila C. Dalleprane


Sinopse
Os habitantes da pacata Iping têm toda razão de não conseguirem falar sobre outra coisa. O desconhecido que se hospedou na pensão local está sempre coberto da cabeça aos pés, com o rosto inteiramente envolto em bandagens. Além disso, chegou trazendo um verdadeiro laboratório portátil e um rastro de mistério, que aumenta ainda mais quando crimes começam a acontecer e quando se descobre que o homem é... invisível!
Sucesso desde a publicação, em 1897, O Homem Invisível mistura humor e ficção científica, além de ser também um belo livro sobre solidão, incompreensão e os laços entre o indivíduo e a humanidade.
Resenha
“De gênio e louco, todos temos um pouco”, é o que dizem, mas o personagem principal dessa obra ultrapassa os limites aceitáveis do que seria considerado normal.
A história começa com a chegada desse excêntrico personagem à cidade de Iping, durante uma tempestade de inverno.
“Estava agasalhado dos pés à cabeça, e a borda de seu chapéu de feltro macio cobria seu rosto inteiro, exceto a ponta reluzente do nariz; a neve se amontoava em seus ombros e em seu peito, agregando uma crista branca à maleta preta. Ele cambaleou até a pensão Coach and Horses, mais morto do que vivo, e largou a valise no chão.”
Um sujeito como esse, obviamente, se tornou motivo de curiosidade e especulação por parte dos moradores da cidade. Com seu aspecto singular, comportamento estranho e jeito rude de tratar as pessoas, logo também virou alvo de antipatia e suspeita.
Depois de um roubo, e de a relação com a comunidade já estar fragilizada, o segredo do sujeito é revelado, e ele parte em uma fuga desvairada.
A narrativa ganha um ritmo frenético quando Griffin, em meio à sua fuga, reencontra um antigo conhecido, o Dr. Kemp. É nesse momento que as máscaras, ou as bandagens, caem e descobrimos, através de seus próprios relatos, a origem de sua condição e de sua amoralidade.
Que história perturbadora.
Confesso que fiquei embasbacada com a naturalidade e indiferença com que ele contava toda a história e expunha sua visão de mundo. Logo percebi que Griffin não é o "cientista injustiçado" típico, mas alguém que já tinha sementes de vilania antes mesmo da invisibilidade. Separei algumas passagens que revelam a mente perturbada do protagonista:
“Não senti nenhum remorso por meu pai. Ele me pareceu vítima de seu próprio sentimentalismo tolo. A hipocrisia vigente exigira minha presença em seu enterro, mas, no fundo, eu não tinha nada a ver com aquilo.”
“Na época, eu não sentia especial solidão, tampouco achava que saíra do mundo para um lugar desolado. Eu tinha noção do meu distanciamento, mas o atribuía à insignificância das coisas em geral.”
“Eu estava invisível e apenas começando a entender a vantagem extraordinária que a invisibilidade me dava. Minha cabeça já fervia com planos de todas as coisas extremas e magníficas que eu agora tinha impunidade para fazer.”
“Em chamas! Eu havia queimado todos os meus navios... Se um dia alguém queimou os próprios navios, esse alguém fui eu! O lugar ardia em chamas.”
Acho que vocês já conseguem um vislumbre da trajetória dele até aquele momento em que ele acreditava estar recrutando um velho conhecido para participar de seus planos de fuga e domínio.
Contudo, o poder absoluto tem um preço logístico alto. Wells é brilhante ao mostrar o lado mundano e miserável da invisibilidade: o frio cortante, a dificuldade de comer e o isolamento absoluto. O que deveria ser uma vantagem torna-se uma prisão invisível.
O que se segue é uma caçada humana eletrizante, em que a traição e a vingança culminam em um desfecho irônico. O final é feliz? Bem... a pergunta correta seria: feliz para quem?
Minhas conclusões:
O livro é surpreendentemente fluido. A narrativa possui um ritmo que alivia o peso do tema, muitas vezes utilizando um narrador que parece ter reconstruído os fatos através de fragmentos de notícias e testemunhos, o que dá um ar de realismo documental à obra.
Quanto aos personagens, embora seja difícil criar empatia com o protagonista, os personagens secundários são fascinantes em sua mediocridade e realismo. É fácil visualizar as reações daquela pequena comunidade. Destaco também a inteligência pragmática de Kemp, que serve como o contraponto necessário à loucura de Griffin.
O Homem Invisível nos deixa uma pergunta inquietante: o que sobra da nossa ética quando o olhar do outro, o maior vigia do comportamento humano, deixa de existir?
Obrigada por caminhar comigo por essa história. Nos vemos na próxima viagem literária!


Se interessou pelo livro?
H. G Wells
200 páginas
Editora Clássicos Zahar


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