O Fantástico Sr. Raposo - Roald Dahl

Resenha de O Fantástico Sr. Raposo, de Roald Dahl: quando o protagonista é o ladrão e nós torcemos por ele. Uma análise sobre escolhas, moralidade e leitura compartilhada.

A cozy reading nook featuring the book Fantastic Mr. Fox by Roald Dahl, a steaming mug of tea, and a lit candle.
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Sinopse

Conheça a história do Sr. Raposo e sua família que, ao encontrarem uma armadilha muito bem feita, vão precisar de um plano fantástico para escapar! Do célebre autor britânico Roald Dahl, Fantástico Sr. Raposo é um clássico da literatura infantil mundial.

Em um vale onde havia três fazendas, alguém está roubando animais valiosos dos três fazendeiros mais malvados da região: Boque, Bunco e Bino. Quando descobrem que o ladrão é o Sr. Raposo, eles decidem bolar um plano para se livrar de uma vez por todas da família de raposas.

Mas os malvadões vão precisar ser muito astutos, pois mal imaginam que esta raposa não é boba e tem seu próprio plano fantástico para escapar da armadilha...

“Esta reedição do clássico de 1970 conta a história do esperto Sr. Raposo, sua amada esposa e seus quatro filhotinhos, que, juntos, conseguem ser mais espertos que os fazendeiros mais malvados de todos os tempos. As livrarias vão considerar ter esta novíssima reedição em seus catálogos.” ― Booklist

Resenha

Confesso: terminei O Fantástico Sr. Raposo com uma sensação diferente da que esperava. O livro de Roald Dahl é frequentemente indicado para crianças e apresenta uma aventura divertida, cheia de humor, perseguições e personagens bastante caricatos. Mas, enquanto lia, uma pergunta me acompanhou do início ao fim: por que exatamente estamos torcendo pelo Sr. Raposo? Talvez essa fosse a intenção do autor, talvez não. No entanto, foi essa questão que guiou toda a minha leitura.

Desde as primeiras páginas, sabemos que o Sr. Raposo invade as fazendas para roubar animais e alimentar sua família. O que mais me chamou a atenção é que o roubo não é apresentado como uma medida desesperada diante de uma situação extrema. Logo no início, a Sra. Raposa escolhe o que gostaria de jantar e o Sr. Raposo simplesmente sai para buscar exatamente aquilo que ela deseja. O roubo faz parte da rotina do personagem: ele conhece as propriedades, planeja seus ataques e retorna repetidamente às fazendas.

Até aí, tudo bem. A literatura não precisa apresentar protagonistas moralmente perfeitos. Personagens podem errar, agir de forma questionável e, ainda assim, proporcionar excelentes histórias.

O que me chamou a atenção foi outra coisa: a narrativa faz com que o leitor enxergue esses roubos com simpatia. Boque, Bunco e Bino são retratados como homens gananciosos, desagradáveis e violentos, assumindo rapidamente o papel de vilões. Em contraste, o Sr. Raposo é inteligente, corajoso, engenhoso e carismático, ocupando claramente o lugar de herói. Assim, quase sem perceber, começamos a torcer para que ele consiga escapar.

Em determinado momento, o Texugo demonstra desconforto com toda aquela roubalheira. O Sr. Raposo justifica suas atitudes dizendo que qualquer pai faria o mesmo para impedir que seus filhos morressem de fome e afirma que eles apenas pegarão comida suficiente para sobreviver, sem machucar ninguém.

É um argumento que desperta empatia, afinal, a fome é uma necessidade real. Mas fiquei pensando: uma necessidade justifica qualquer escolha? Essa pergunta ficou ainda mais interessante porque o roubo é a forma habitual como o Sr. Raposo consegue aquilo de que precisa, não um último recurso.

Ao mesmo tempo, o argumento do protagonista deixa em segundo plano o fato de que Boque, Bunco e Bino querem capturá-lo justamente porque ele invade repetidamente suas propriedades. É claro que os três não são exemplos de bondade, e suas atitudes são exageradas e violentas. Mas isso não muda um fato simples: o Sr. Raposo está roubando o que pertence aos fazendeiros.

Talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais interessante, e também mais desconfortável, do livro. Não acredito que uma criança termine essa leitura pensando simplesmente que "roubar é certo". A questão é muito mais sutil.

A história mostra como é fácil simpatizarmos com alguém quando conhecemos sua perspectiva. Ao acompanhar o Sr. Raposo, enxergamos sua família, sua inteligência e o perigo que enfrenta. Isso faz com que o leitor concentre sua atenção na sobrevivência do protagonista e dê menos destaque ao fato de que ele invade propriedades particulares e se apropria de algo que não lhe pertence. Ao mesmo tempo, os fazendeiros continuam sendo os prejudicados pelos roubos, mas, aos olhos do leitor, passam a ocupar principalmente o papel de obstáculos à vitória do protagonista.

Foi isso que mais me fez refletir. Podemos gostar de um personagem sem concordar com tudo o que ele faz. Podemos admirar sua inteligência e, ainda assim, questionar suas escolhas. Podemos reconhecer que os fazendeiros são desagradáveis sem concluir que todos os seus motivos deixam de ser legítimos.

Por isso, eu não classificaria O Fantástico Sr. Raposo apenas como uma aventura divertida. Para mim, a história levanta questões profundas sobre escolhas, justiça, consequências, propriedade e sobre como a forma de contar uma história influencia nosso julgamento moral.

Por esse motivo, considero que esta é uma leitura que, se escolhida, merece ser compartilhada entre adultos e crianças. Não porque crianças não possam entrar em contato com personagens moralmente complexos, mas porque a presença de um adulto pode ajudar a guiar essa reflexão. O Sr. Raposo é extremamente carismático, tornando-se um excelente ponto de partida para conversar com a criança sobre a diferença entre admirar alguém e concordar com todas as suas atitudes.

Não terminei essa leitura encantada pelo Sr. Raposo. Terminei refletindo sobre ele. No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas se o personagem estava certo ou errado, mas por que uma história nos faz torcer por alguém que toma decisões questionáveis.

Se você optar por essa leitura, que ela seja, acima de tudo, compartilhada e conversada.

Illustrated literary banner with a girl reading, watercolor flowers, cats, and paper planes.
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Roald Dahl

96 páginas

Editora Galera Junior

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