Noites Brancas – Fiódor Dostoiévski
Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, narra um encontro ao longo de quatro noites que revela a beleza e a dor das paixões fugazes que nascem entre sonho e realidade.
Camila C. Dalleprane


Sinopse
Durante uma das singulares “noites brancas” do verão de São Petersburgo, em que o sol praticamente não se põe, dois jovens se encontram numa ponte sobre o rio Niéva e dão início a uma história repleta de fantasia e lirismo.
Publicado em 1848, na contracorrente de sua época, que privilegiava o Realismo, este livro é na obra de Dostoiévski, aquele que mais se aproxima da escola romântica. Não apenas pelo tipo do Sonhador, figura central da novela, mas também pela atmosfera delicada e fantasmagórica, que envolve a trama, o cenário e os protagonistas. Aqui a própria cidade de São Petersburgo — com seus palácios e pontes, seus espaços monumentais — revela-se como personagem.
Não por acaso, Noites brancas atraiu a atenção de diretores de cinema como Luchino Visconti e Robert Bresson, que procuraram traduzir para a tela todo o encanto desta que se tornou uma das obras mais famosas de Dostoiévski — agora pela primeira vez no Brasil em tradução direta do russo..
Resenha
Publicada em 1848, essa é uma das novelas mais sensíveis de Dostoiévski.
“A paixão é cheia de desilusões.” Esse é o primeiro pensamento que me vem à mente após a leitura dessa obra, tão delicada quanto dolorosa.
A história, narrada em primeira pessoa, se passa em São Petersburgo, durante as noites brancas, um período do verão em que escurece muito tarde, por volta das dez da noite, e o dia já está claro novamente por volta das quatro da manhã. Nessa época do ano, as pessoas vão para as casas de campo e a cidade fica deserta.
O Sonhador, nosso protagonista sem nome, um jovem solitário de 26 anos, caminha pela cidade à noite enquanto compartilha conosco seus pensamentos, sentimentos e impressões sobre a cidade, as pessoas e a vida.
“Eu seguia e cantava, porque quando estou feliz cantarolo sem falta algo para mim mesmo, como qualquer pessoa feliz que não tem nem amigos, nem bons conhecidos, e que num momento alegre não tem com quem dividir sua alegria. Súbito aconteceu comigo o incidente mais inesperado.”
Ele conhece Nástienka, uma jovem de 17 anos, à beira de um canal. Eles iniciam um diálogo quando ele, após salvá-la de um bêbado, decide acompanhá-la até em casa. Quando ela lhe dá o braço para caminharem juntos, ela percebe que ele está tremendo. Nesse momento, ele faz uma confissão:
“Sim, se meu braço está tremendo é porque ele nunca foi rodeado por uma mãozinha tão bonita e pequena como a sua. Estou completamente desacostumado das mulheres; quer dizer, nunca me acostumei com elas, sou um solitário... Nem mesmo sei como conversar com elas. Agora mesmo, será que não lhe disse alguma tolice?”
Eles caminham juntos e conversam por todo o trajeto, até que chega a hora de se despedirem. O Sonhador, então, se enche de coragem e pede para que o encontro se repita. Nástienka concorda, mas impõe uma condição:
“[...] antes de mais nada (apenas faça o favor, faça o que vou pedir, veja que estou falando francamente), não se apaixone por mim... isso não pode ser, eu lhe asseguro. Para amizade eu estou pronta, aqui está minha mão... Mas apaixonar-se, não, eu lhe peço!”
Eles se encontram novamente na noite seguinte, passam horas conversando e trocando confidências, e o laço de afeto que une os dois se estreita. Nástienka abre seu coração para o jovem Sonhador ao falar sobre sua vida, o motivo de sua aflição na noite anterior e ao pedir conselhos. Enquanto ele ouve atentamente, seu coração se aperta, e seus sonhos se tornam menos doces.
É impossível não perceber o contraste entre sonho e realidade. O Sonhador idealiza, projeta, constrói um mundo inteiro dentro de si. Mas a vida real não se curva às fantasias que criamos.
A partir daí, não posso revelar muito, pois corro o risco de dar spoilers. O que posso dizer é que eles se encontram por mais duas noites, totalizando quatro encontros. Ele não consegue manter a promessa que fez e acaba se apaixonando por ela.
“Que seja claro o seu céu, que seja luminoso e sereno o seu lindo sorriso; abençoada seja você pelo momento de júbilo e felicidade que concedeu a um coração solitário e agradecido!”
É uma história delicada, melancólica e profundamente humana. Mais do que um romance breve, é um retrato da solidão, da idealização e das desilusões que acompanham as paixões intensas e efêmeras.
Obrigada por caminhar comigo durante essas noites brancas. Nos vemos na nossa próxima viagem literária.


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