Kindred - Octavia E. Butler
Ela perdeu um braço… mas isso foi uma fração de todo o sofrimento. Leia a resenha de Kindred, de Octavia Butler, e mergulhe em uma história intensa e inesquecível que vai te marcar.
Camila C. Dalleprane


Sinopse
Obra que inspirou adaptação na plataforma Star+, Kindred: Segredos e Raízes, lançada no Brasil em 2023.
Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça.
Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando, e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda.
Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida, até acontecer de novo. E de novo.
Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil, um lugar perigoso para uma mulher negra, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.
Resenha
“Perdi um braço na minha última volta para casa. Meu braço esquerdo.
E perdi aproximadamente um ano da minha vida, além de grande parte do conforto e da segurança que só aprendi a valorizar depois de perdê-los. Quando a polícia libertou Kevin, ele foi ao hospital e ficou comigo, para que eu soubesse que não o havia perdido também.”
Essas são as primeiras linhas de Kindred, de Octavia E. Butler.
Logo de início, somos tomados por perguntas: o que aconteceu? Como ela se machucou? Quem fez isso com ela?
Não é difícil imaginar cenários possíveis, e terríveis, para uma mulher negra inserida em um contexto onde a escravidão não é apenas um capítulo da história, mas uma realidade brutal e cotidiana.
A primeira vez que Dana “viaja”, ela está em sua casa nova, desempacotando caixas, quando é tomada por uma sensação repentina de tontura e náusea. Em segundos, é transportada para um lugar desconhecido. Um menino está se afogando. Ela o salva, mas logo depois se vê sob a mira de uma espingarda. Em seguida, tão abruptamente quanto chegou, está de volta à sua casa.
Essas viagens passam a se repetir, e há sempre algo em comum: o mesmo menino, sempre em perigo.
Quem é ele? E qual é a ligação entre os dois?
Dana se vê presa em um ciclo de idas e vindas entre o presente e o passado, um passado em que a escravidão é ainda mais cruel, violenta e desumanizadora do que qualquer relato histórico pode transmitir. Nesse ambiente, ela não é reconhecida como quem é, uma mulher livre. Para sobreviver, precisa se adaptar, se calar e se submeter. Precisa, acima de tudo, resistir.
Ali, sua vida vale muito pouco.
“[...] Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão”.
Com o passar do tempo, as experiências de Dana se tornam cada vez mais intensas e perturbadoras. Ela é constantemente confrontada por dilemas morais e éticos que desafiam seus valores, sua identidade e sua própria noção de humanidade. A cada retorno, algo nela muda, e a sensação de pertencimento ao seu próprio tempo começa a se fragmentar.
Ela quer voltar. Mas, mais do que isso, precisa entender o que está acontecendo e o que deve fazer para que tudo aquilo finalmente termine.
Kindred é uma obra poderosa, que entrelaça temas como amor, violência, ancestralidade, poder e sobrevivência. Mais do que um romance sobre viagem no tempo, é um mergulho profundo nas marcas psicológicas e sociais da escravidão.
O mais inquietante é perceber o quão frágil pode ser a liberdade. O livro provoca uma reflexão incômoda: até que ponto manteríamos nossos princípios intactos quando a sobrevivência está em jogo?
Terminei a leitura com um misto de revolta, empatia e tristeza, sentimentos que permanecem mesmo depois da última página.
“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco.” — Octavia Butler
Esse livro mexeu comigo de formas que ainda estou tentando entender. Ele escancara tanto o pior quanto o melhor do ser humano e nos deixa com perguntas difíceis. De onde vem tanta crueldade? E, ainda assim, de onde vem tanta capacidade de amar?
Se você procura uma leitura que provoque, incomode e faça refletir, leia.
Obrigada por me acompanhar nessa viagem, nos vemos na próxima!


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