A Lanterna das Memórias Perdidas - Sanaka Hiiragi
Entre a vida e a morte existe um estúdio fotográfico. Em A Lanterna das Memórias Perdidas, descubra quais lembranças merecem ser eternizadas antes da despedida final.
Camila C. Dalleprane


Sinopse
A Lanterna das Memórias Perdidas é um romance japonês profundo e comovente a respeito do que é realmente importante na vida e do encanto de reviver, uma última vez, seus melhores momentos.
Num estúdio fotográfico onde um antigo relógio de parede não funciona mais, Hirasaka gentilmente recepciona seus visitantes, um por um, em um confortável sofá de couro, oferece-lhes a bebida de sua preferência e revela o que os aguarda.
Pegos de surpresa, os visitantes descobrem que estão em um ponto de transição entre a vida e a morte e recebem uma grande quantidade de fotos ― correspondentes às suas lembranças, em que cada fotografia representa um dia de suas vidas ― além da incumbência de selecionar uma para cada ano vivido. Com essa missão, ganham a oportunidade ímpar de revisitar sua memória mais preciosa e tirar novamente a foto do momento em questão ― incapazes de fazer qualquer coisa para alterá-lo e invisíveis para o mundo. Forma-se então uma espécie de lanterna giratória de memórias, composta pelas fotos dos momentos mais significativos de suas vidas, proporcionando-lhes a chance única de assistir à própria vida passar diante de seus olhos.
Dentre tantos visitantes, conhecemos três pessoas que passam por ali, com vidas entrelaçadas por amor, empatia e resiliência: uma professora de noventa e dois anos, um membro da Yakuza de quarenta e sete anos e uma criança.
Diante das diversas opções de memórias a serem revisitadas, qual cada um escolherá? E por que Hirasaka, o único que não tem lembranças da própria vida e que possui apenas uma foto, é o responsável por cuidar desse estúdio?
Em meio a esses e outros mistérios, tudo o que se sabe é que as fotografias guardam uma poderosa força invisível.
Resenha
A Lanterna das Memórias Perdidas, da autora japonesa Sanaka Hiiragi, é um romance contemporâneo que se insere no gênero conhecido como “literatura de cura” (healing fiction), uma tendência crescente entre autores japoneses e coreanos.
A história se passa em um estúdio fotográfico localizado em uma espécie de “meio-caminho” entre a vida e a morte. O anfitrião é Hirasaka, que acolhe aqueles que acabaram de falecer para um último rito de passagem.
Cada visitante recebe envelopes com fotos de cada dia de sua vida e deve escolher uma para cada ano vivido. Essas fotos são colocadas em uma “lanterna giratória” (mawari-doro), que permite que vejam sua vida passar diante dos olhos uma última vez antes de partirem definitivamente.
"Bem, a verdade é que, por mais poderosa ou rica que seja a pessoa, tudo o que ela possui ao chegar aqui são apenas recordações."
O que torna o livro especial é que, se uma memória estiver “apagada” ou se a pessoa quiser observar algo mais de perto, Hirasaka permite que ela volte no tempo para aquele momento específico para tirar uma nova foto, como um observador invisível.
"[...] Se um retrato, ao contrário daquele que é guardado em algum lugar e esquecido, é o preferido de uma pessoa, que o manuseia de maneira contínua ou o enquadra para enfeitar um canto da sala, a imagem tende a descolorir e a danificar. E quanto mais a pessoa o examina, mais ele estraga. O mesmo acontece com as lembranças. [...]"
O livro se estrutura em três contos que, à primeira vista, parecem independentes: o de uma senhora de 92 anos que viveu o pós-guerra, o de um membro da Yakuza com um passado brutal e o de uma criança negligenciada.
O capítulo sobre o membro da Yakuza, por exemplo, traz uma camada ética profunda ao mostrar que, mesmo em vidas marcadas pela violência, existe um limite para a crueldade. Ao observar as injustiças do mundo, o personagem reflete que, embora cobrasse dívidas sem piedade, reconhecia que o bullying e o abuso possuem uma linha que pessoas que se consideram humanas não devem cruzar.
À medida que avançamos na leitura, percebemos que o tempo no estúdio não funciona de forma linear. Hiiragi utiliza uma estrutura narrativa circular e inteligente, na qual as vidas dos personagens se entrelaçam de maneiras inesperadas, revelando conexões que apenas o leitor atento consegue captar por completo.
A obra discute o impacto que uma pessoa pode ter na vida de outra, mesmo sem ter plena consciência disso. Trata-se de uma reflexão sobre o legado invisível que deixamos e sobre como pequenos atos de bondade ou proteção podem ressoar através das décadas, moldando o destino de quem fica.
Mais do que uma história sobre memória, A Lanterna das Memórias Perdidas é um romance japonês contemporâneo profundamente simbólico e comovente. É um convite para refletirmos sobre quais fotos escolheríamos para representar nossos próprios anos. Hiiragi nos lembra que, mesmo quando esquecemos quem somos, o bem que fazemos pelos outros permanece registrado — se não em papel fotográfico, na memória viva daqueles que ajudamos a salvar.
Uma obra indispensável para quem busca conforto em meio às complexidades da existência e para os amantes da fotografia, que verão na técnica de Hirasaka uma metáfora para o próprio ato de viver: ajustar o foco, escolher o momento e deixar a luz entrar.
Agradeço por me acompanhar nessa viagem literária pelas lentes de Hirasaka e nos vemos na próxima, sempre em busca de novas e boas memórias!


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